Desabafo de Cileide e toda sua história

Desabafo de Cileide e toda sua história

Desabafo da nossa eterna Cilêde Marques no momento da dor

Escrevo o que estou sentindo muito triste, preocupada com minha saúde que não está bem, sinto dores todos os dias no útero, coração, na cabeça, não durmo, só chorando sem saber o que vou fazer com tudo que estou passando, sinto um desanimo, cansaço, sinto muito só, tenho que mudar minha alimentação, tenho que fazer vários exames mais não posso fazer porque é muito caro, não tenho dinheiro para isso, a depressão voltou muito forte, não estou aguentando, estou ficando cada dia mais fraca, sem força para lutar, não sei o que vai ser de mim daqui para frente desde 1998, que fiquei com depressão e insônia, nunca mais fui a mesma foi dai para a pior, estou escrevendo o que estou sentindo e o que eu quero se algo acontecer:

Minhas bonecas é para doar a um orfanato de crianças, as roupas e para vender e dar também para o orfanato, sapato, minha bijuterias, minha mesa que ganhei, guarda -roupa, as 2 comodas vende e doa tudo para o orfanato, não fica nada meu em casa, não sei quando eu vou e nem quero ir, mais do jeito que eu me encontro, não sei o que pode acontecer, só sei que eu não quero ir.

Flores dentro do caxão eu quero e vasos de flores fora e coroas com faixa, o vestido rosa ou azul, com as mãos separadas uma em cima e outra embaixo.

Quero que seja tudo rápido, não demore e que para sempre um lugar alegre, nada de escuro, tudo bem claro, senhor Jesus Cristo, eu não quero que aconteça isto, mais se acontecer e assim que quero.

Cilêde
10/08/2006

Nossa História

A noite mais difícil da minha vida foi dia 27/09/12, (quinta -feira), quando eu tive que levar a Tita, minha esposa as pressas para o HUB, chegando lá em menos de meia hora os médicos atenderam ela e fizeram todos exames e baterem os raios X e constatou, anemia crônica, pneumonia, estado de Coma Hiperosmolar, sepse grave, doenças de chagas e diabete descompensada, fizeram todo procedimento possível, depois de 20 minutos eles perceberam que a diabete não tinha baixado e fizeram todo procedimento de novo até então o coração dela estava batendo normal de 110 a 120, até então eu estava tranquilo, achando que tudo ia ser resolvido, só que aquela agonia e a falta de ar que ela estava sentindo em casa continuava muito forte, e ela dizia: Tito não está passando, está aumentando a agonia, chama a doutora e a doutora ouviu e disse calma dona Cileide que vai passar é porque demora os remédios fazerem efeito, mais vai melhorar e ela disse para mim, Tito não deixa eu morrer, ela confiava que eu ia fazer alguma coisa, porque todas as vezes que ela ficava nas ultimas sabia que eu ia fazer alguma coisa, só que dessa vez eu não consegui, foi mais forte do que meu conhecimento divino.

Diante daquela agonia que ela estava sentindo eu vi que era a agonia da morte e eu não quis aceitar e nem ela, me senti naquele momento um grão de arroz estragado, que não servia para alimentar ninguém. Quando eu olhei para o coração dela baixando de 110 para 90, de 90 para 70 e de 70 para 40 e a ultima vez que eu vi estava 37 ai veio a parada cardíaca e quando ela arregalou os olhos deu o ultimo suspiro, os médicos imediatamente foi reanimar ela, eles conseguiram reanimar mais logo em seguida ela deu outra parada cardíaca ai não teve mais jeito e os médicos não sabiam como me dá a noticia, ai eu disse: Pode falar que eu já estou preparado para ouvir o pior foi quando a doutora resolveu falar, nós fizemos todos os procedimentos mais infelizmente não foi possível.

Eu agradeci a todos os médicos e enfermeiros pela dedicação deles e a única coisa que me restou foi abraçar e beijar ela foi o ultimo beijo de despedida porque a partir daquele momento nós estávamos se separando definitivamente.

A 38 anos atrás quando nasceu o 1º filho a Cileide deu eclampses e quase morreu, depois que os médicos fizeram os procedimentos correto para acabar com aquele sangramento, ai ele disse: -Vamos deixar ela em observação de hoje para amanhã, que já era noite, quando foi de manhã a enfermeira pegou no pé dela para ver se ela estava viva e a enfermeira chamou o doutor e disse: – Ela está viva, ai os médicos tornaram a fazer o procedimento que tinham que fazer para voltar a vida normal e ela acordou, fez todo tratamento para a recuperação, ai eu não quis ter mais filhos, porque o médico disse que ela poderia morrer se tivesse outro filho,durante dois anos eu passei a evitar para que ela não engravidasse de novo, mais ela disse: – Eu quero ter outro filho. Eu falei: – Você e maluca! Quer morrer no parto, não lembra que o doutor disse para você não podia ter outro filho e se você morrer eu vou ficar com a culpa, e ela disse eu quero ter assim mesmo é tudo ou nada, eu não querendo contrariar resolvi a ter fé e ter novamente outro filho e assim a gente fez, e ela deu eclampses novamente e ficou muitos dias para se recuperar mais graças a Deus ela ficou bem, para criar os dois filhos que ela me deu, que hoje são meus filhos adultos, minhas joias preciosas e depois quando a gente achava que estava tudo bem, apareceu uma veia aberta na vagina e teve que fazer cauterização, fora a dor que ela sentia toda vez que sangrava. Durante 02 anos sarou, mais depois voltou novamente a sangrar e ela teve que fazer cauterização novamente.

E eu nunca mais quis ter filhos novamente com ela, para evitar um problema maior, o médico já tinha me alertado para eu tomar juízo e não fazer mais as vontades dela. Foi quando descobrimos que ela tinha doença de chagas, lutamos para que a doença não aumentasse, mais a doença começou a se desenvolver na barriga dela e deixando- a sempre inchada, foi quando ela entrou em depressão, porque estava perdendo a cintura devido o inchaço, qualquer coisa que ela fazia ou se esforçasse muito a barriga inchava, se ela dançasse, lavasse roupa, limpasse a casa, ficava toda inchada e sentia dor.
Ai começou a bater uma depressão muito forte ela não dormia, de 20 anos pra cá, só dormia a base de remédio controlado pelo médico e calmante para viver o dia a dia até na data de hoje. De repente ela começa a sentir dor no útero e os médicos disse que tinha que operar, quando foi fazer os exames de risco cirúrgico, o médico disse que ela não podia operar porque ela tinha um bloqueio no coração, já era da doença de chagas, foi quando o médico disse que não ia dá o laudo favorável, porque ele não queria perder a carteira de medicina, ela começou a chorar, eu a abracei e disse não filha, vamos procurar outros meios, ai a doutora Fabiana, passou as injeções para ela tomar de três e três meses, porque ela tinha muitos miomas, por isso que doía e sangrava e assim a gente veio vivendo ao longo do tempo, com alguns tratamentos alternativos, expeliu os miomas e ela ficou 04 anos sem sentir dor e sem sangrar, quando pensamos que estava tudo bem por causa da idade que já estava avançada, foi quando a gente descobriu que ela tinha HPV, ai foi outro desespero, mais a doutora tranquilizou a gente dizendo que havia o tratamento, passamos dois anos em tratamento, foi quando a doutora disse que poderia voltar, mais não voltou ela ficou curada, mais começou a doer novamente e sangrar, de 2011 para cá ela começou a sentir dor e sangrar direto de lá pra cá nós batalhamos em cima com a injeção e o remédio alternativo e daí acho que veio a anemia, de tanto eu pedir a Deus, encontrei um remédio que tirasse a dor e o inchaço da barriga dela, eu fiquei tão feliz que pensei que tinha ganhado na loteria sozinho, e todo dia eu perguntava Tita você está sentindo dor, e ela dizia que não doía mais não, era inacreditável, eu dizia obrigado pai mil vezes, que finalmente a gente tinha conseguido com que a Cileide não sentisse mais dor.

Foi um milagre de Deus, obrigado pai por você me ouvir, ela disse para mim, como eu estava aguentado cuidar dela este tempo todo, pois não sei até quando você vai aguentar, e eu disse para ela, eu quero que Deus me de 200 anos para eu poder cuidar de você, porque você é minha joia preciosa, você é meu alicerce, você é quem não deixa eu fazer besteira, você é quem coloca juíza na minha cabeça, você é quem me chama a atenção todas as vezes que eu vou errar, então por isso que eu prefiro viver 200 anos cuidando de  você.

Ai foi quando começou a gripe muito forte, que levou ela ao cansaço e chegou a hora da agonia e chegou a hora da morte o que vocês ouviram no inicio dessa mensagem. A minha maior revolta pensar como uma pessoa pode sofrer tanto assim, nem um ladrão, nem um assassino, por pior que seja não merece sofrer tanto como a Cileide sofreu, a vida inteira para depois terminar dessa forma, tão nova, foi uma esposa perfeita durante 39 anos, foi uma dona de casa exemplar que nunca me deixou a desejar, como mãe ela foi perfeita, tanto que os filhos estão adultos e ama ela como se fosse uma criança.

Com esse sofrimento todo ela gostava muito de boneca, de criança e idosos e era muito caridosa e quando as pessoas olhavam para ela e criticava-a porque estava gorda, porque era dona de academia, e ela sempre dizia para as pessoas, aonde eu achei todas as dores que eu sinto, eu deixo para você, ao invés das pessoas perguntarem por que ela estava daquele jeito não, elas iam logo criticando, por isso que eu sempre digo primeiro você pergunta para depois criticar.

Isso é o que eu tenho a dizer a todos as pessoas que estão ouvindo está mensagem.
Palavras do Emival, na hora da perca, na hora da dor e do desespero e parece que nunca vai passar essa dor.
Obrigado Deus por ter me dado a Cileide como minha esposa, diante de toda dificuldade nós fomos felizes….

Agradeço a todos que ouviram e leram essa carta.

Palavras escritas por Emival Marques,
em 30/09/2012

* 25/09/1952
+ 27/09/2012

One thought on “Desabafo de Cileide e toda sua história

  1. Essa mensagem é muito emocionante.
    Parabéns a família.
    Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

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